Se é certo que nem todos os dias são felizes também é igualmente certo que nem todos os dias são infelizes. Existem os dias em que gritamos, amuamos, castigamos e, acima de tudo, nos perguntamos sobre o que é isto de criar uma criança, de dar a um filho os princípios, os valores, as normas e os sonhos com que se constroem uma vida. É difícil ser pai quando se pensa que o fruto do nosso esforço, do nosso trabalho só se poderá avaliar daqui a alguns anos. São tantas as dúvidas, tantos os momentos em que penso “fiz bem? É realmente esta a melhor opção para o bem do meu filho?”. Talvez por vezes eu pense demasiado, talvez por vezes questione e procure racionalizar o que não é para questionar nem racionalizar. Habitualmente, no dia a dia, toda a gente espera de mim certezas inabaláveis, verdades universais, um sentido de orientação sem margem para dúvidas. Mas eu tenho dúvidas, e muitas. São mais que muitas as vezes em que me pergunto que filho estou a fazer de ti. Sim, por muito que custe a admitir e aceitar, acabamos sempre por tentar fazer de um filho o que esperamos que seja. Nesta altura, preocupam-me os valores, a estabilidade emocional, a tua própria construção de disciplina e equilíbrio, qualquer coisa que te permita mais tarde adiar as recompensas, lidar com as frustrações, gerir um pouco os sentimentos. Não me preocupa se irás estudar muito ou pouco, embora prefira que estudes muito. Não me importa “o que serás” mas espero que tenhas uma profissão com a qual te sintas feliz e realizado, de onde possas retirar sustento, prazer, satisfação pessoal. Ao mesmo tempo que penso que não tenho o direito de pensar nestes termos, uma vez que só quero que tu sejas sempre tu, também é verdade que me vou perguntando que género de balizas posso ir espalhando pelo caminho para que esse tu seja bem sucedido, socialmente correcto, longe dos tantos perigos e rasteiras onde tantos outros se perdem. Demasiado moralista? Talvez, não sei. E esta é a lição que vou aprendendo: não sei todas as respostas, não sei qual o melhor caminho, não sei sequer se estou a fazer bem ou mal o meu papel de pai. Acho que à medida que o tempo passa, as dúvidas nunca se dissipam, apenas se transformam em mais dúvidas, em dúvidas maiores. E custa muito ver o quanto todos esperam de mim e por outro lado, o pouco de certezas e soluções que tenho para oferecer.
Mas como disse há pouco, há também os outros dias. Os dias em que me desarmas e em que me esqueço da teia de pensamentos e dúvidas em que habitualmente me envolvo. Há dias em que me pegas pela mão e me dizes “anda brincar”. Nesses momentos é tudo tão simples e perfeito como o mundo perfeito que inventamos, esse mundo cheio de comboios de madeira, de árvores, de montanhas e sinais de trânsito que não respeitamos minimamente. É um mundo mágico, colorido, bonito. É perfeito o mundo onde brincamos, onde não somos pai e filho mas apenas duas crianças de idades distintas unidas pelo mesmo sorriso, pelos mesmos dedos que empurram comboios, barcos, gruas, camiões. São momentos que, passando como tudo passa, ainda assim ficam, tocam-me no mais profundo de mim. As tuas gargalhadas, a espontaneidade do teu riso, do teu sorriso desdentado maravilhoso que é capaz de iluminar uma casa, o meu mundo, a obscuridade de todas as minhas dúvidas e receios. De uma forma imperceptível, cresces, ganhas vontades próprias, exprimes a rebeldia própria de quem ainda não conhece os limites que auto-impomos neste mundo meio louco em que nos vamos consumindo. Continuo rendido perante a tua criatividade, a forma simples como tudo parece simples nas tuas mãos (chocapic com sopa – porque não?), como não vês ainda limites para a fantasia, para a magia que existe em todas as coisas.
É difícil caracterizar este ano de ti. É difícil explicar-te, apontar momentos concretos, actos específicos. Hoje fazes três anos e nem por isso sei concretamente o que escrever. Continuas o milagre, o mais indescritível e inconfessável de uma vida. Por vezes passo o tempo que posso a olhar para ti, a ver-te brincar, a ouvir a tua lenga-lenga ou os minutos em que cantas sozinho, sentado no tapete enorme e cor de laranja da sala. Tu rodeado de brinquedos, de um exército silencioso de amigos sempre dispostos a serem nas tuas mãos grandes, de dedos compridos e delicados, tudo o que queiras, todos os sonhos que te ocorram. Olho para ti, para o teu cabelo revolto, para ti inteiro à procura de um indício que me permita compreender-te de uma vez por todas, e tudo em ti é mistério, tudo em ti é a promessa de um futuro, acima de tudo, a promessa de um caminho que desconheço mas que quero percorrer contigo, a teu lado, com a tua mão na minha, um caminho por onde possamos seguir rumo a um futuro ignorado e onde te possa dizer “filho, não tenhas medo, o papá está aqui”. Por vezes levantas a cabeça do teu mundo e os teus olhos são faróis, são sóis incandescentes de um castanho mel que me encantam, deliciam, e depois és capaz de dizer as coisas mais desconcertantes para um adulto. És capaz de dizer “papá, compra uma galinha”. És capaz de dizer “gosto de ti, papá”. E no absurdo ou na ternura, eu rendo-me, rendo-me diante de ti. Limito-me a sorrir, limito-me a dizer qualquer coisa, umas vezes com sentido, outras vezes sem qualquer sentido. Por dentro sobe-me à boca uma palavra “amo-te, amo-te, meu filho”. A cada dia que passa, aumentam os desafios e por vezes as angústias de um pai diante do seu filho sem saber que caminho apontar. Ao mesmo tempo, porque nunca nada é linear, ao mesmo tempo, todos os dias aumenta ainda mais o amor, a ternura, a certeza que, por muito que as nossas vidas possam mudar, o amor não muda nunca. Parabéns, filho. Amo-te muito!








