Lilypie 4th Birthday Ticker

31.1.07

Um filho continua a ser sempre um milagre. A cada dia que passa, há sempre uma palavra nova, uma expressão, uma qualquer conquista que nos arrebata às reprimendas, às dúvidas, à rigidez ou permissividade com que se vai improvisando uma educação – seja lá isso o que for.
Se é certo que nem todos os dias são felizes também é igualmente certo que nem todos os dias são infelizes. Existem os dias em que gritamos, amuamos, castigamos e, acima de tudo, nos perguntamos sobre o que é isto de criar uma criança, de dar a um filho os princípios, os valores, as normas e os sonhos com que se constroem uma vida. É difícil ser pai quando se pensa que o fruto do nosso esforço, do nosso trabalho só se poderá avaliar daqui a alguns anos. São tantas as dúvidas, tantos os momentos em que penso “fiz bem? É realmente esta a melhor opção para o bem do meu filho?”. Talvez por vezes eu pense demasiado, talvez por vezes questione e procure racionalizar o que não é para questionar nem racionalizar. Habitualmente, no dia a dia, toda a gente espera de mim certezas inabaláveis, verdades universais, um sentido de orientação sem margem para dúvidas. Mas eu tenho dúvidas, e muitas. São mais que muitas as vezes em que me pergunto que filho estou a fazer de ti. Sim, por muito que custe a admitir e aceitar, acabamos sempre por tentar fazer de um filho o que esperamos que seja. Nesta altura, preocupam-me os valores, a estabilidade emocional, a tua própria construção de disciplina e equilíbrio, qualquer coisa que te permita mais tarde adiar as recompensas, lidar com as frustrações, gerir um pouco os sentimentos. Não me preocupa se irás estudar muito ou pouco, embora prefira que estudes muito. Não me importa “o que serás” mas espero que tenhas uma profissão com a qual te sintas feliz e realizado, de onde possas retirar sustento, prazer, satisfação pessoal. Ao mesmo tempo que penso que não tenho o direito de pensar nestes termos, uma vez que só quero que tu sejas sempre tu, também é verdade que me vou perguntando que género de balizas posso ir espalhando pelo caminho para que esse tu seja bem sucedido, socialmente correcto, longe dos tantos perigos e rasteiras onde tantos outros se perdem. Demasiado moralista? Talvez, não sei. E esta é a lição que vou aprendendo: não sei todas as respostas, não sei qual o melhor caminho, não sei sequer se estou a fazer bem ou mal o meu papel de pai. Acho que à medida que o tempo passa, as dúvidas nunca se dissipam, apenas se transformam em mais dúvidas, em dúvidas maiores. E custa muito ver o quanto todos esperam de mim e por outro lado, o pouco de certezas e soluções que tenho para oferecer.
Mas como disse há pouco, há também os outros dias. Os dias em que me desarmas e em que me esqueço da teia de pensamentos e dúvidas em que habitualmente me envolvo. Há dias em que me pegas pela mão e me dizes “anda brincar”. Nesses momentos é tudo tão simples e perfeito como o mundo perfeito que inventamos, esse mundo cheio de comboios de madeira, de árvores, de montanhas e sinais de trânsito que não respeitamos minimamente. É um mundo mágico, colorido, bonito. É perfeito o mundo onde brincamos, onde não somos pai e filho mas apenas duas crianças de idades distintas unidas pelo mesmo sorriso, pelos mesmos dedos que empurram comboios, barcos, gruas, camiões. São momentos que, passando como tudo passa, ainda assim ficam, tocam-me no mais profundo de mim. As tuas gargalhadas, a espontaneidade do teu riso, do teu sorriso desdentado maravilhoso que é capaz de iluminar uma casa, o meu mundo, a obscuridade de todas as minhas dúvidas e receios. De uma forma imperceptível, cresces, ganhas vontades próprias, exprimes a rebeldia própria de quem ainda não conhece os limites que auto-impomos neste mundo meio louco em que nos vamos consumindo. Continuo rendido perante a tua criatividade, a forma simples como tudo parece simples nas tuas mãos (chocapic com sopa – porque não?), como não vês ainda limites para a fantasia, para a magia que existe em todas as coisas.
É difícil caracterizar este ano de ti. É difícil explicar-te, apontar momentos concretos, actos específicos. Hoje fazes três anos e nem por isso sei concretamente o que escrever. Continuas o milagre, o mais indescritível e inconfessável de uma vida. Por vezes passo o tempo que posso a olhar para ti, a ver-te brincar, a ouvir a tua lenga-lenga ou os minutos em que cantas sozinho, sentado no tapete enorme e cor de laranja da sala. Tu rodeado de brinquedos, de um exército silencioso de amigos sempre dispostos a serem nas tuas mãos grandes, de dedos compridos e delicados, tudo o que queiras, todos os sonhos que te ocorram. Olho para ti, para o teu cabelo revolto, para ti inteiro à procura de um indício que me permita compreender-te de uma vez por todas, e tudo em ti é mistério, tudo em ti é a promessa de um futuro, acima de tudo, a promessa de um caminho que desconheço mas que quero percorrer contigo, a teu lado, com a tua mão na minha, um caminho por onde possamos seguir rumo a um futuro ignorado e onde te possa dizer “filho, não tenhas medo, o papá está aqui”. Por vezes levantas a cabeça do teu mundo e os teus olhos são faróis, são sóis incandescentes de um castanho mel que me encantam, deliciam, e depois és capaz de dizer as coisas mais desconcertantes para um adulto. És capaz de dizer “papá, compra uma galinha”. És capaz de dizer “gosto de ti, papá”. E no absurdo ou na ternura, eu rendo-me, rendo-me diante de ti. Limito-me a sorrir, limito-me a dizer qualquer coisa, umas vezes com sentido, outras vezes sem qualquer sentido. Por dentro sobe-me à boca uma palavra “amo-te, amo-te, meu filho”. A cada dia que passa, aumentam os desafios e por vezes as angústias de um pai diante do seu filho sem saber que caminho apontar. Ao mesmo tempo, porque nunca nada é linear, ao mesmo tempo, todos os dias aumenta ainda mais o amor, a ternura, a certeza que, por muito que as nossas vidas possam mudar, o amor não muda nunca. Parabéns, filho. Amo-te muito!

31.1.06

Um ano que se soma sobre outro ano. Mais um ano de ti. E fácil é esquecer-me que um ano não é mais que a soma de muitos dias seguidos, de uma vida que se vive diariamente, nas alegrias e tristezas com que todas as vidas se preenchem. Contudo, só nos apercebemos do caminho percorrido quando, em algum ponto da estrada, paramos e olhamos para trás – o que nós já andámos.
Desta vez, estou diante das palavras e só encontro ausência. Penso. Recordo tantos momentos de tantos dias que passaram e nada sei dizer. Muitos dos acontecimentos deste último ano ficaram por relatar por censura – umas vezes minha, outras da tua mãe. Julgo que o que ficou por dizer melhor será não ser dito, deixar essas migalhas ao sabor do vento implacável do esquecimento – ou da nossa vontade em esquecer. Mas recordo também momentos de ternura, de doçura, daquele verdadeiro entendimento que está para lá de qualquer palavra – esse género de sentimento que não sei explicar, que não sei dizer.
Continuas a mesma alma inquieta de sempre. Há em ti uma inquietude que te compele à desordenação da vida, um verdadeiro espírito que só sabe correr até cair – não é defeito, é feitio. Por vezes rimos. Por vezes gritamos uns com os outros no limite da tolerância e da paciência. Mas o que fazer senão entender que és mesmo assim? O que fazer senão tentar as vezes que forem precisas (e parecem sempre na casa do infinito) explicar-te o que deves e o que não deves fazer? Tens dias em que pareces um anjinho, outros em que pareces um diabrete de fraldas a monte nessa tua vida ainda tão pequena como tu. Julgo que, a ser possível um balanço como se a vida de um filho de contas se tratasse, todos os pais e todas as mães acabam por ter a mesma quantidade de motivos de queixa e orgulho, apenas em parcelas que mudam de criança para criança.
Hoje, tal como há exactamente um ano, fomos ao Oceanário. Desta vez, conseguimos almoçar fora, animados por sorrisos ou múuus estridentes e desesperados consoante as tuas flutuações de humor. É passar dos oito aos oitenta em poucos segundos. É rires e chorares ao mesmo tempo. É seres o centro das atenções por onde passamos, ou com frases como “que criança tão simpática”, a dizeres “olá” a toda a gente e mandares beijinhos; ou com as pessoas a taparem discretamente os ouvidos ou tecerem comentários baixinhos de desaprovação (que fingimos nem ouvir) pela tua “falta de educação”. Tudo isto, em poucos segundos, sem termos qualquer tempo para nos prepararmos para o que virá a seguir. Desta vez conseguimos almoçar fora antes de irmos ao Oceanário. Em contrapartida a visita foi bem mais despachada contigo a marcar o ritmo num tempo acelerado – ou seja, a correres por ali fora! Mas olha o peixinho, olha o pinguim – e tu já na sala seguinte, sem parar, sempre em frente. Não fosse o simples objecto chocar com as minhas reservas morais e comprar-te-ia uma trela – embora tenha a certeza que acabarias por roê-la até se partir ou que, simplesmente, saberias gerir bem as duas pontas de forma a que nós é que acabássemos por ser os passeados ao teu sabor.



E eu? Passado mais um ano sobre o teu nascimento, acredito que estou mais calmo e mais tolerante. Ou então mais conformado com o que não posso mudar. Como qualquer pessoa, tenho dias melhores em que consigo realmente saborear um sorriso, uma mão que se fecha na minha, uma conversa que pareces entender só para depois descobrir que não entendeste nada e rir-me com isso. Nesse aspecto, lutei durante meses contra uma das tiradas célebres da tua mãe que dizia “todos podem ser pais mas nem todos conseguem ser papás”. Agora já não penso tanto nisso mas esse pensamento ruminou-me meses a fio. E eu a querer tanto ser papá, especialmente numa altura em que deixaste de me chamar papá para passar a ser apenas pai. Acho que agora já entendi que só me resta tentar diariamente o meu melhor e deixar que sejam os anos a decidir quem serei realmente para ti. Já consigo respirar fundo e ter a calma para ir andando ao sabor da maré. Embora, também tenha dias sombrios, dias em que simplesmente não consigo entender nada e tudo me sai errado. Talvez a regra precise realmente de uma excepção que a confirme. Mas como não melhorar quando, depois de receber uma chamada a dizer que está no hospital, vou para lá completamente desvairado só para te encontrar com a camisola toda manchada de sangue, os lábios inchados, um dente completamente fora de sítio (e mais tarde arrancado) mas ainda assim tu de volta da máquina das sandes a tentar enfiar a chave do carro em tudo quando eram orifícios?! Aos poucos vamos aprendendo a dosear os sentimentos. Sofremos sempre e amamos sempre, apenas aprendemos a sofrer mais tarde e a amar mais cedo.
Que te dizer mais, meu filho? Todos os dias te amo. Todos os dias sinto orgulho em ti. Todos os dias desejo que sejas sempre tu, apenas tu e nada mais que tu. Todos os dias me sinto teu pai (de preferência papá), descobrindo nisso uma razão de ser na vida que, antes de ti, ignorava por completo. É graças a ti que tento ser um homem melhor mesmo sabendo que, quanto mais ando, mais tenho para andar. Sem que te apercebas, à medida que vais aprendendo o que é a vida, eu, que me julgava conhecedor de todas as respostas, descubro que afinal ainda só conhecia as perguntas e que assim vamos os dois aprendendo juntos essa coisa indescritível que é a vida.Parabéns, filho, por mais um aniversário, por todos os dias com que preencheste mais um ano. Obrigado, filho, por todos os instantes que me tens oferecido, por, mesmo sem o teres decidido, partilhares comigo o milagre da tua vida. Parabéns! Obrigado!

30.8.05

A felicidade de uma criança brincando com um balão vermelho é absoluta. A tua felicidade brincando com um balão vermelho é absoluta. É total. Neste momento todas as contrariedades que sentes são fugazes. Choras quando pedes o «inhá» e nós não sabemos o que é o «inhá» e vamos-te passando coisas para as mãos, «inhás» imaginados, deduzidos, inventados no momento mais ou menos ao sabor da área provável que esse indicador perfeitamente minúsculo vai apontando. São as tuas contrariedades, os teus problemas, as tuas angústias. Depois disso, nada mais existe senão o teu fascínio perante um balão vermelho. Como se nunca nada tivesse existido antes que doa e vá ficando. Brincamos os três na cozinha. A tua mãe e eu jogamos o balão com a cabeça, com o joelho, com pontapés suaves e abaulados para que o balão passe sobre ti, para que pouse sobre ti, para que o agarres com ambas as mãos e um sorriso que sorri mais que o mundo, maior que a tua boca escancarada na satisfação, nos gritinhos de felicidade. Num sorriso maior que os teus olhos abertos como girassóis encantados. «bá!». E um balão vermelho é um objecto mágico. Um balão é a felicidade na vida. Tu em bicos de pés e braços abertos, erguidos para o «bá» que está logo ali, sobre ti, a escassos centímetros dos teus dedos. «bá!» Depois corres abraçado ao balão e com um sorriso que fica para trás como a cauda de um cometa cintilante. Balão sobre a mesa. Balão no chão. Balão agarrado, mexido, virado de todos os ângulos. «bá!» E é espantoso como na inocência da vida tudo nos parece imensamente muito, nos parece mágico, mais até do que conseguimos gozar. Só mais tarde esse tanto se transforma para sempre em tão pouco. Só mais tarde um balão vermelho passa a ser apenas um balão vermelho, nada mais que um balão vermelho. Até que uma criança nos volte a mostrar a magia e a plenitude de um balão. Até voltarmos a ver com os nossos próprios olhos aquilo que já não sabíamos ver. A felicidade, ali mesmo, diante de nós, nas mãos e olhos e gritinhos de uma criança que está absoluta e verdadeiramente feliz por ter um balão vermelho. Brincamos os três e rimos muito. Rimos alto. Rimos como só se consegue rir com qualquer coisa que nos faz feliz. Mesmo quando escondes o balão dentro da máquina de lavar roupa, rimos. Mesmo quando a tentar chutar o balão bato com o joelho na pedra mármore da janela e tenho dores rimos à mesma. Continuo a rir mesmo quando vejo o teu corpo tão perfeitamente construído na robustez própria de uma criança e penso que só tu me farias rir de felicidade diante de um balão vermelho. És feliz. Tão feliz. Tão total e absolutamente feliz. E resta-me apenas continuar a rir e agradecer-te em silêncio por me fazeres feliz no testemunhar da tua absoluta felicidade.

26.8.05

Estás sentado na minha barriga. Recostas-te no sofá improvisado entre o verdadeiro sofá e a minha barriga. Vês televisão. Estás sereno – o que talvez seja um sinal de sono. É um dos raros momentos em que te sinto sereno. Observo-te. Pensas aquilo que só tu sabes e que será sempre, para sempre, um mistério. Eu observo. Reparo no teu perfil harmonioso, na tua expressividade, nos teus cabelos revoltos como os meus a precisarem de um corte. Sereno, tão sereno, meu filho. Ao olhar para ti, ao brincar com o teu cabelo, penso para comigo que este é um dos momentos que não quero deixar passar. É agora. É neste preciso instante que tudo vale a pena. É estranho ter esta percepção, este raciocínio. Contudo, sinto-o em mim como uma certeza inabalável. A felicidade é isto. É exactamente isto. Estamos os dois no sofá. Estou deitado depois de um dia esgotante de trabalho e tu estás sentado na minha barriga a ver televisão. Estou feliz. Olho para ti na totalidade de quem és, sinto cada segundo, cada instante passar lento por nós e sei que é isto, a felicidade torna-se palpável, tangível, identificável. Tu absorto no milagre qualquer que vais destrinçando aos poucos e que é o mundo, ou a tua vida nesse mundo. E eu perante o espanto de ti. Eu inteiro a pensar que me é impossível parar o tempo mas, simultaneamente, não me importo assim tanto porque estou conscientemente a viver um momento de felicidade indescritível, cuja simplicidade e profundidade ultrapassa o tamanho de toda e qualquer palavra. Apenas um pai com o seu filho. Apenas um momento que passa. Apenas qualquer coisa indefinível que transcende tudo – e apenas.

9.8.05

Não te tenho escrito, é verdade. Penso que talvez não tenha escrito nada sobre ti por me faltar a doçura com que sempre te desejei escrever. É claro que escrever sobre um filho também requer alguma continuidade, quase como uma história. De uma certa forma, é uma lenga-lenga que não pára, preenchida com novas ideias, novos acontecimentos divertidos ou tristes, enternecedores ou bizarros. Afinal, a vida vive-se um dia de cada vez. Mas não tenho sido capaz de escrever. Nada. Rigorosamente nada. De cada vez que tento, apago. Nenhuma frase me parece suficientemente boa ou adequada a tudo o que tenho sentido. Talvez seja altura de reaprender a escrever-te, que é um processo complicado, duro, moroso. Reaprender a sentir-te nas palavras. Temos de ser pacientes e dar tempo ao tempo. Essa verdade também já a aprendi: tudo demora o seu próprio tempo, nem menos, nem mais, apenas o seu próprio tempo exacto.
Enquanto me debato com as minhas próprias insuficiências literárias, afectivas, compreensivas, tu cresces, perguntas o mundo, dás formas a um dicionário que perguntaste sistematicamente ao longo dos últimos meses e que agora te parece pronto para confrontar com o mundo. E como faz o cão, filho? Olhas para mim por um instante como se esse fosse o instante preciso em que procuras a resposta dentro de ti. “Ão-ão”. Sim, filho, é assim que faz o cão.
Ao longo dos últimos meses nada tem sido fácil. Por vezes é muito fácil lidar contigo. Por vezes é impossível. Por vezes magoamo-nos. Por vezes conseguimos realmente dar e receber carinho, afecto, amor. Talvez agora sinta um pouco mais de esperança. Agora sei que, mesmo que por raros momentos, sei ser um pai de jeito. Desses momentos vou construindo qualquer coisa, pelo menos, a ideia que posso melhorar. Também à minha volta vou procurando melhor. Para começar, tive a oportunidade para mudar de emprego e não hesitei, sequer – pelo menos até agora tenho conseguido um tempinho extra para ti. É um princípio. O caminho é longo, sinuoso, denso de avanços e recuos. Nem todos os dias consigo ter a dose de esperança necessária. Talvez eu seja demasiado complicado, demasiado exigente – comigo, para começar.
O mais importante é também o mais difícil: viver cada dia como uma segunda oportunidade. Até agora, é isso que me tens oferecido diariamente. Sei que agora é comigo. O esforço tem de ser meu, tem de ser maior, tem de ser ainda mais consciente e focado. E não vou desistir.
“Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar” – Jorge Palma.

7.4.05

Nunca confiar em algo que não possamos controlar. Esforço-me para que assim seja. Sempre. Perco uma grande parte da minha vida a gerir, a controlar todos os factores de que dependo. No meu trabalho, o trabalho que produzo tem de ser exacto, rigoroso, fiável, um trabalho que não apresente falhas – perfeito... Contudo, controlar tudo é impossível e sou obrigado a confiar, porque dependo, porque preciso.
O site onde estava o template deste blogue fechou portas, desapareceu, evaporou-se. Ou seja, como confiei, fiquei com um blogue desfeito. Não confiar. Nunca confiar. Se não controlava o template, para que o usei? Erro básico. Afinal, ao fim de tantas séries de X-files já devia saber: trust no one!
Por agora, já arranjei um template que controlo. Conto nos próximos dias trabalhar melhor o grafismo do blogue e voltar a “ter” um blogue como quero.

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27.3.05

Encontrar um fio condutor segundo o qual tudo faça sentido – talvez seja um sonho, uma quimera, uma utopia desmedida. Mas é também o único resumo que encontro para este imenso tempo sem te escrever, para justificar todos os textos que comecei e deixei pendurados no primeiro ou segundo parágrafo. Temas não têm faltado. Todos os dias descobres qualquer coisa nova que nos maravilhe aos três, todos os dias cresces, evoluis, orientas-te nessa desarrumação completa a que chamamos vida. Contudo, e longe de fazer da minha própria história o tema deste relato, tudo na minha vida tem rodopiado num turbilhão delirante, até olhar para o processador de texto e não conseguir escrever rigorosamente nada.
Talvez este resumo deva começar no dia 15 de Fevereiro, às 18 e 59, quando na barra do meu computador se acendeu um rectângulo azul, piscando com insistência. É a forma mais simples de me manter em contacto com a tua mãe sem recorrer a chamadas telefónicas, a momentos específicos, a esquecer-me sistematicamente do motivo pelo qual liguei ou da palavra que ficou ainda por dizer terminada a chamada – mensagens instantâneas. É também assim que sei de tantas pequenas façanhas tuas, desse processo imparável de cresceres. Quando abri a janela, só lá estava uma frase, uma única frase. “Love says: ò mor, ele já anda!”. Li a frase e senti alegria, um sorriso contido que não se partilha com ninguém. Imaginei a evolução, dos teus pequenos passinhos ainda agarrado a tudo aquilo a que conseguisses deitar a mão, para a liberdade de andares sozinho, passinhos curtos, inseguros, a procura de um equilíbrio que te parece fugir, as mãozinhas no ar a ajudar no movimento, um funambulismo improvisado a cada passo. E eu no escritório, fechado entre paredes, cercado de pessoas que estão mais tempo contra mim que comigo. Saturado de projectos intermináveis e, contudo, tão insignificantes, mas que me mantêm a trabalhar até de madrugada, fins-de-semana e feriados. Tu já andas.
Nos dias seguintes consegui, em horários perfeitamente desfasados dos de uma vida normal, ver-te esses passinhos maravilhosos. Vislumbrei, quase ao longe, o crescer-te da confiança, as mãozinhas que já agarram objectos, que batem palminhas, que exploram tudo o que conseguem alcançar enquanto os teus pezitos te levam (quase independentemente de ti) pela casa fora, sem te agarrares. É um momento bonito. Embora, como já disse, andasses agarrado pela mão, ou agarrando-te a tudo, faltava-te ainda esse momento em que tu já vais para onde queres. Olhas, imaginas, e vais. É realmente bonito. É claro que desde aí já bateste com a cabeça em imensos sítios, é claro que já inchaste lábios e olhos e sangraste gengivas, que tantos objectos que considerávamos fora de mão te passaram mesmo para as mãos, com alguns resultados menos agradáveis. Mas tudo isso faz parte de um percurso bem maior que é a tua vida, tu a caminho de ti, e nós felizes por assistirmos e participarmos também.
Depois disso, adoeceste. Com o passar dos dias fomos riscando as hipóteses que achávamos normais, esgotámos a nossa capacidade de medicação caseira. Quando começaram os vómitos fomos ao hospital. Nessa altura eu já era um pai irascível, completamente desorientado com as noites que se sucediam sem dormirmos, com o trabalho, contigo, com tudo. Otite, disseram-nos. E os vómitos não passaram. E ficaste cada vez pior. E só depois de muitas voltas se concluiu uma gastroenterite. Dias e noites pavorosas. Tinhas fome, choravas, e só te podíamos dar uma colher a cada dez minutos – e tu com fome, em lágrimas, sem a tua energia habitual, sem quereres brincar. “Olha o telemóvel do papá, sim, hoje podes brincar com o telemóvel filho, podes atirá-lo ao chão se quiseres, podes fazer tudo o que te apetecer que o pai está a sofrer por te ver assim” – e tu nada, tu tão apenas uma sombra de ti. E depois a tua mãe no limite, e eu completamente esgotado, e o casamento nos altos e baixos que todos os casamentos têm embora este baixo tenha sido muito baixo. E nós contigo nos braços à espera que melhores, a desejar que regresses rapidamente ao habitual, ao mundo a rodopiar-te nas mãos, a nós dizermos-te que não mexas e estejas quieto. Mas como sofremos quando ficas mesmo quieto e não mexes em nada. Foram dias complicados. E pensar que não foi a última vez que estiveste doente mas apenas a primeira.
No dia do Pai, a tua mãe deu-te um embrulho para as mãos e disse-te para dares ao papá. Trouxeste-me o embrulho com um sorriso do tamanho do mundo. “É para mim? Obrigado”. Rasgo o papel e vejo uma pintura, as tuas mãos sobre tela. Nesse momento, talvez te tenhas lembrado de pintar a tela (terás já memórias pontuais, que não funcionem pela repetição?) porque rebentas numa excitação tremenda, começas a falar (na tua língua, claro) muito rapidamente e bates com a mão na tela, depois viras a tela para me mostrar as fotos comprometedoras do acto coladas no verso, apontas muito para as fotos e continuas a falar muito rápido, viras a tela e bates novamente com a mão sobre as manchas de mãos e dedos multicoloridos com que a encheste uns dias antes. Passamos nisto algum tempo – tu eléctrico e, eu fascinado, pela pintura, pelas fotos em que estás com os dedos verdes e com a tina da tinta na boca, com o teu discurso, com a tua memória, contigo. É uma prenda maravilhosa. De tal forma maravilhosa que a levo mais tarde para o emprego e penduro na divisória da “capoeira” em que vivo confinado a maior parte do meu tempo – foi o meu filho, tenho artista! E os meus colegas riem-se.
Nos intervalos deste tempo, de todo este tempo, tentei escrever-te. Tentei muitas vezes e de muitas formas diferentes. Contudo, nada mais conseguia para além de uma ou outra frase que apagava de seguida. No dia do meu aniversário, queria escrever-te uma carta que não fui capaz de redigir. Tentei antes, tentei depois – nada. Agora, que resumo tanto tempo em tão poucas linhas, sei que se perderam muitos, inúmeros, momentos que desejava realmente fixar. É pena. Pode ser que, aos poucos, me vá recordando dos imensos fragmentos com que se constrói a memória de uma vida. Como lembrar-me das “pantufas” em plástico azul que tive de calçar na maternidade quando nasceste – o que eu e a tua mãe rimos com a elegância improvável daquele calçado. Ou como, quando disse a um colega e amigo que ia ser pai, ele convidar-me no dia seguinte para descermos à garagem porque tinha uma lembrança para mim. Era uma fralda de pano. Agradeci, claro, e sai-me com um tirada fantástica que só um ainda-não-pai consegue ter:
- Deve ser a única fralda de pano que ele vai ter, nós queremos usar descartáveis.
Ele, pai de pouco tempo, responde:
- És muito abrolho! Estas fraldas não são para limpar o c*! São para pôr no ombro quando pegamos neles, porque eles bolçam!
Por vezes ocorrem-me estes episódios, assim, sem mais nem menos. Espero apenas conseguir um dia organizar estas memórias de um pai stressado em qualquer coisa que te faça sentido, onde possas encontrar as raízes de quem és, onde talvez entendas melhor como foi crescermos contigo e tu connosco. Pelo caminho, espero inventar a serenidade de que necessito, o fio condutor que nos mantenha à tona nesta confusão de vida. Assim espero.

8.2.05

Penso que, habitualmente, os pais mascaram os filhos de cowboys, bailarinas, cachorros, gatinhos e afins. Nós mascarámos-te de morcego. Tem tudo a ver contigo e a fatiota fica-te a matar. Não fazes a mais pequena ideia do que é o Carnaval, nem em termos de conceito nem no terra a terra mais prático da festa em si, mas isso não te impediu de sorrir, rir e usar o teu ar tão maroto e bem ajustado à touca com orelhas e capa de “morcegão”!
Ao colo da tua mãe viste passar carros alegóricos, palhaços chorões, batuqueiros, super heróis, super vilões, políticos e muita, muita fantasia a fingir a verdade. Contrariamente ao que pensava, nada te fez confusão, nem a intensidade do barulho, nem a agitação, nada. Riste, bateste palmas e tudo observaste com a atenção típica com que escrutinas o mundo. Um morcegão ao colo da sua mãe e a receber algumas festinhas e saudações e muitos adeus dos figurantes que passavam libertos na pele imaginada da fantasia.



Não há mesmo moral da história – o fato ficava-te bem assim como tu ficavas bem ao fato.

5.2.05

Celebrar-te. Trazer-te connosco para o centro da roda da vida, onde tudo é caminho, passagem, duração, apenas – é para isso que servem as festas de aniversário. Foi por isso que me levantei tão cedo, que fui buscar o bolo de aniversário a um lado, salgadinhos a outro, e miniaturas, sumos, doçarias variadas. Tudo a correr, numa excitação doida, especialmente a preparar pilhas de sandes, a garantir que tudo estaria certo, preciso, exacto para a tua primeira festa de aniversário.
A tua mãe começou o trabalho muito antes de mim. Porque era necessário um tema central, um motivo a partir do qual tudo se distribuísse em harmonia e bom gosto. Os guardanapos, os copos, tinham de ver com os balões e com as decorações que nos três últimos dias vi crescerem nas paredes. E tudo isso tinha de “encaixar” perfeitamente com o próprio bolo, claro. É claro que eu não pensava “resolver” a tua festa com umas sandes de coiratos e umas minis, mas também não me passava pela cabeça a quantidade infindável de variáveis a ponderar na equação final que a tua mãe imaginava para a festa. É impossível descrever. Sei apenas que essa harmonia silenciosa começou a ganhar forma na cabeça da tua mãe há pouco mais de um mês, a procura do tema, a procura de todas as bugigangas necessárias à consistência, do sítio onde fariam o melhor bolo, com o tamanho, forma, sabor e cores necessárias.





Nos dois últimos dias, eu e a tua mãe jantámos de pé, sobre a bancada da cozinha porque a mesa já tinha vindo para a sala. Ela e os teus avós enchiam balões, colavam decalques, reuniam sumos, rebuçados, chocolates e fitas coloridas. Ela imprimia desenhos a preto e branco para que as crianças que te vinham celebrar pudessem entreter-se a colorir. A própria casa foi limpa a um rigor extremo mais próprio da museologia que das necessidades funcionais de uma casa “normal”.
No meio de tudo isto, tu, com a tua tão característica resistência ao sono, com a necessidade permanente de estarmos à tua volta, atrás de ti, a tratar de ti. Espanta-me como, mesmo assim, conseguimos fazer tanto. Mesmo quando descemos à rua para almoçarmos à pressa e à vez. Eu a passear-te pelo restaurante enquanto a tua mãe devorava o comer a ferver, depois ela a distrair-te e eu a ruminar já sem grande apetite o comer que entretanto esfriara no prato. Chegados a casa, prontos para começar a receber os convidados, decides dormir uma sesta e, cada vez que abríamos a porta da rua para novas visitas dizíamos logo “entrem mas não façam barulho que ele está a dormir”. Foi assim que começámos a festa, sem barulho, em conversas sussurradas, a vermos a hora do lanche passar por nós como um comboio que se esquece de parar na estação – conceito especialmente divertido quando aplicado a pessoas como os meus pais que, como sempre, chegam a dizer que já é tarde e têm de ir embora.




Foste, assim, o último a chegar à tua festa de aniversário. Contudo, não perdendo pela demora, a todos agarraste, sorriste, puxaste, empurraste e brincaste. A sesta insuflou-te de uma alegria e boa disposição contagiantes. Os teus olhos brilhavam no cimo do teu risinho sincero e feliz à medida que a casa crescia no som das conversas, das músicas da carochinha, nos “olha o que eu pintei” das outras crianças e na nossa correria para nos certificarmos que tudo estava bem, que nada faltava, que os nossos convidados conseguiam comer, beber e conversar um bocadinho.
E quase sem darmos por isso, chegou o momento de te cantarmos os parabéns pela primeira vez. Da tua mãe te segurar ao colo e apagar “contigo” a tua vela, a tua primeira vela, solitária num bolo em forma de Winnie the Pooh como tudo o mais à nossa volta. Eu fotografava tudo. Ao mesmo tempo que tentava ver tudo, sentir tudo, para depois então transcrever o efémero da minha memória nestas linhas da memória futura das coisas. Tu a rir enquanto te cantávamos os parabéns. Tu o anfitrião. Tu agora acertado com mais este ritmo invisível da vida adulta. É lindo. É assustador.



Mais próximo do final, quando os convidados regressavam já aos ritmos próprios das suas vidas, uma amiga nossa diz à tua mãe que se via nos nossos olhos a felicidade, que a felicidade da nossa família é concreta, tangível, visível. Enquanto isso, tu andavas a passear ao colo do teu avô e eu derretido com a Carolina no meu colo (cujo nascimento descrevi noutro sítio). Não me fez qualquer confusão o tamanho, ou melhor, o medo de pegar num bebé tão pequenino. Espantou-me sim a ausência de peso, habituado que estou ao teu peso actual. Contudo, vejo, pego na bebé e sinto uma nostalgia enorme do tempo em que tu próprio eras assim, mesmo quando agora tenho mais de ti ou dormes melhor. Mas o tamanho e a leveza...
Quando agradecemos e fechamos a porta ao último convidado, sentimos o cansaço todo de uma só vez. Ali estamos, os três, de volta ao reduto da família, com a celebração celebrada, com os desenhos, bolos, copos, guardanapos, e balões espalhados pela casa, com doces e sandes suficientes para nos alimentarmos um mês, com sumos e gaseificados suficientes para eu desenvolver uma barriga de elefante.
Os três. E penso que esse é o melhor momento, aquele em que tudo o que conta na minha vida me cabe num único e mesmo abraço.

31.1.05

Dormes tranquilo sobre o teu primeiro aniversário. Fui eu quem te deitou. Depois de todos os pequenos rituais, das rotinas com que te traçamos os dias. Enquanto a tua mãe te dava o jantar, eu arrumei a casa de banho, lavei as chupetas (hoje encontrei as seis), aqueci o panda ou o urso (não dá mesmo para perceber que bicho é!) no micro-ondas e levei-o para aquecer a tua cama até chegares. Depois, quando chega a hora de te deitarmos, a tua mãe deixa-te de pé dentro da cama, onde ficas agarrado às grades como um pequeno saguim, senta-se no chão, junto ao parque cheio de brinquedos e outras bugigangas que prefiro nem reparar (aquilo é o que resta do telemóvel que ofereci à tua mãe??? Ou da Lomo???) enquanto me sento na cadeira junto à cabeceira, com o livro de histórias nas mãos. Faço quase sempre batota com os dias das histórias, ora salto para o futuro, ora regresso ao passado – depende essencialmente do teu estado de espírito. Enquanto pulas, levantas os braços e dás pequenos gritinhos, sempre na esperança de conseguires saltar de novo para o colo da mãe, eu leio pacientemente, com toda a entoação que consigo inventar, uma, duas, por vezes, três histórias. Custa-me contar as histórias com porcos ou leitões, grunhir faz-me tossir, que é algo que prontamente imitas com o ar mais maroto que consegues nos teus doze meses. Quando pegas na fralda e começas a esfregá-la na cara, pouso o livro enquanto a tua mãe te dá um abraço, te diz que durmas bem e que te ama. Nessa altura começas a chorar e agarras-te muito a ela, numa última tentativa para evitar o sono que se aproxima. Depois ela apaga as luzes e sai. Ficamos os dois, apenas nós. Nessa altura, abraço-te, e faço desse mesmo abraço um rebatimento de ti para a posição de deitado. Tapo-te, faço-te uma última festa nos cabelos cada vez mais ondulados e fico muito quieto, o mais quieto que sou capaz. Quando tudo corre bem, apenas te ouço a respiração e o sugar rápido na chupeta. Ao fim de uns minutos, saio pé ante pé do quarto e sinto-me orgulhoso e feliz por aquele momento.
Habitualmente, à hora a que estes rituais ocorrem, ainda não estou em casa. Essencialmente por isso, decidi que neste teu primeiro aniversário não perderia um instante que fosse de ti – meti dois dias de férias. Mesmo quando me convidaram a adiar novamente esses dias para outra altura mantive-me intransigente: estão marcados desde o início do ano! Nem pensar!
Como fazes anos a uma segunda-feira, a festa propriamente dita, fica para o sábado seguinte. Planeei assim com a tua mãe um dia verdadeiramente a três. Plano simples: manhã caseira, para o papá poder dormir um bocadinho mais; almoço fora; tarde de passeio junto ao rio com direito a fotografias alusivas, sorridentes e para sempre felizes. Mas é claro que, uma coisa é um planeamento, outra, a sua execução. E na maioria das vezes, a distância entre as duas é bastante considerável. Assim, após uma suculenta birra manhã fora, decidiste adormecer à hora de almoço, já exausto de tanto nos contrariares. Portanto, almoçar fora resumiu-se a uma voz do outro lado do telefone dizendo “boa tarde, fala o Pedro, em que posso ser útil?”, comigo a responder que “é para encomendar uma pizza”. Contudo, depois desse almoço pré-fabricado e muito improvisado durante a tua sesta, fomos brindados com um Gordito rejuvenescido, bem disposto e muito simpático. Com novo ânimo, e ainda com algum tempo útil da tarde por passar, aí vamos nós a caminho da Expo, para aproveitar o que se podia desse dia tão especial de aniversário. Fomos ao Oceanário. Confesso que íamos preparados para o pior. Imaginei que, mal entrasses lá dentro, rebentarias num choro, que não acharias a mínima piada àquilo, que andar contigo no teu carrinho seria um pesadelo com tanta escada e desnível. O quadro, na minha cabeça, era francamente negro. Só que ao mesmo tempo, pareceu-nos um sítio verdadeiramente interessante para visitar, uma vez que pareces apreciar bastante tudo o que, de alguma forma, seja “animal” (entenda-se esta imprecisão como significando cães, peixes e plantas – não sabemos porquê mas fascinam-te).
Afinal, chegados ao Oceanário, descobrimos que os acessos para pessoas com incapacidades ou deficiências motoras ou com carrinhos de bebé, não só existem como funcionam. E não é preciso pedir por favor aos seguranças que nos ajudem a transpor um lanço de escadas, antes de lá chegarmos já nos estão a indicar o caminho para um elevador que afinal nunca nos tinha parecido existir. Posto isto, foi o teu espanto perante os peixes (porque nesta altura presumo que te pareçam todos mais ou menos iguais – peixes) que mais me surpreendeu. O carrinho tornou-se apenas um quarto passageiro naquela visita. Fizeste tudo ao meu colo, batendo nos vidros ou encostando-lhes a boca (quererias morder os tubarões?), observando simplesmente a quantidade e diversidade de vida que parecia pairar lenta no aquário central ou que deslizava rápida em cardumes garridos e nervosos. O percurso foi demorado. Parámos em cada janela, vimos todos os habitantes do Ocenário. Se riste para os pinguins, muito mais te fascinaram as raias (julgo que o nome correcto seja jamantas), a voarem na água em câmara lenta, num bater de asas submerso e gracioso. Adoraste os tubarões que desenhavam trajectórias muito próximas aos vidros onde te apoiavas com ambas as mãos e um arzinho maravilhado. A luz que refractava lá bem no cimo do tanque, como uma aparição, ganhou completamente a tua admiração. Olhava para ti e senti o teu encanto perante aquele mundo novo. Não sei quanto tempo demorámos, mas foi muito. Só mesmo no final do percurso começaste a dar mostras de saturação, de cansaço e um soninho a desafiar-te na distância.


Voltámos para casa felizes e o resto do dia decorreu dentro da normalidade possível das tuas rotinas. Após o jantar fui eu quem te deitou e disse baixinho o último “parabéns” do dia. Enquanto escrevo estas palavras, como de costume, sentado no sofá da sala, com o portátil no colo e uma manta sobre os joelhos, dormes profundamente o teu primeiro aniversário. Ao pensar nisto, sorrio e pergunto-me se sonharás com peixes coloridos, sisudos ou agitados, corais, medusas, algas, pinguins e tubarões, se no mundo secreto do teu sonho nadarás naquele aquário onde a luz baila no topo de todo o movimento ou, até, se te sentirás novamente um pequeníssimo bebé indefeso e solitário no útero da tua mãe, à espera de acordar.
Imagino agora um barco de papel, um pequeno barco, em tudo igual aos que as crianças inventam nos seus primeiros desenhos, uma vela amarela, um casco azul. Estamos os dois nesse barco infantil à primeira luz do amanhecer. Tu e eu. Pai e filho. Descemos um rio imenso cuja extensão desconhecemos. Navegamos à vista, sem instrumentos, sem orientação, sem destino, apenas ao sabor da brisa que paira mansa sobre as águas calmas que nos embalam no seu vai e vem tranquilo. Nas margens, entre troncos ou canaviais, vemos flamingos, alfaiates, andorinhas do mar, garças e tantas outras aves, cujos nomes ambos desconhecemos por completo. Ainda é cedo, ainda te agasalho melhor para que não te constipes. Ainda é cedo para apontares tudo o que desconheces e fazeres aquele som que já aprendi a traduzir como um “o que é? o que é?”. Limito-me a sorrir, a observar, a pousar-te um braço sobre os ombros e sentir-me bem por ali estarmos.
Assim será este relato. Não sei quanto tempo durará. Pode durar uma semana, pode durar até um tempo em que te diga “filho, dá-me a mão para atravessarmos a rua” e tu me respondas “ó pai, deixa-te de mariquices, tenho 18 anos”. Desta vez não existe nenhum objectivo. Navegamos à vista. Não sei sequer se escrevo para ti ou para mim. Não faço ideia. Limito-me a escrever um pouco mais de ti. E sinto-me feliz por isso.